Por Jorge Jatobá – JC PE – 16/03/26
Convidado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas, Sociais e Politicas (IPESPP), instituição liderada pelo cientista político Antônio Lavareda, participei, em Lisboa, de evento da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no dia 28 de janeiro passado para o lançamento do Barômetro da Lusofonia (2026,1ª Edição). É um estudo comparativo, inédito, que analisa o perfil social, cultural e político dos cidadãos residentes nos países de língua portuguesa. Foi concebido, elaborado e coordenado pelo IPESPE em parceria com a CPLP.
O Barômetro da Lusofonia analisa um conjunto de dimensões da vida contemporânea nos países de língua portuguesa, estruturando-se em torno dos seguintes temas: econômico e de infraestrutura; sociais, incluindo o legado da escravatura, a desigualdade e a diversidade, e a imigração. São contemplados também temas relacionados a mudanças climáticas; democracia e participação; desinformação e fake news. Este artigo centra-se no Brasil, comparando-o com os demais países da CPLP.
O Brasil consolida a sua posição como o maior país da CPLP e, de acordo com os dados populacionais da ONU, o sétimo maior do globo, com um contingente de 213,4 milhões de habitantes. O PIB per capita brasileiro, em 2023, (US$ 10.310) foi três vezes inferior ao de Portugal (US$ 29.292) e quase 16 vezes superior ao de Moçambique (US$ 656). As desigualdades econômicas dentro do bloco são, portanto, significativas.
Sob a ótica social, o perfil brasileiro no ecossistema lusófono é marcado por um paradoxo estrutural. Pois, embora, o país apresente o segundo maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do grupo (0,79), ele detém o maior índice de desigualdade interna da Comunidade medido pelo coeficiente de Gini (51,6). Com esse índice, o Brasil aproxima-se de padrões de concentração de renda observados em nações de IDH médio ou baixo, como Angola (51,3) e Moçambique (49,6), revelando que a equidade distributiva não acompanha o ritmo do crescimento econômico ou do bem-estar geral mensurado pelo IDH de 0,79 que é considerado alto, mas inferior ao de Portugal (0,89, muito alto). Com relação à imigração, 69% dos brasileiros são favoráveis, 4ª posição no ranking, superior à de Portugal (43%).
Os dados confirmam uma tendência transversal na CPLP, particularmente acentuada no Brasil: a dissociação entre a satisfação individual e a leitura do ambiente coletivo que expressa uma visão negativa do país. Os brasileiros tendem a reportar níveis de satisfação significativamente superior (7,9, nota de zero a dez)) quando avaliam as suas estratégias de vida cotidianas e trajetórias pessoais. Em contraste, existe uma visão marcadamente pessimista e crítica sobre a situação atual do país, contemplando as esferas política, econômica e institucional (5,6). A diferença ente a satisfação pessoal e a visão crítica do país é maior no Brasil (-2,3) Apesar do diagnóstico severo do momento atual, a população detém uma discreta postura de esperança (40% acham que vai melhorar ou melhorar muito), a penúltima do ranking dos nove países e abaixo da média geral (52%) . Todavia, a satisfação com a democracia é frágil. Apenas 33% dos brasileiros estão satisfeitos com o funcionamento da democracia, a 5ª do ranking. Em Portugal, a satisfação alcança 61%, a segunda do ranking.
A agenda de prioridades da população lusófona é dominada por três temas recorrentes: saúde (53%), educação (43%) e desemprego (34%). A violência também se destaca como um desafio a ser superado (18%). No Brasil os três principais problemas identificados pela população são: saúde (45%), educação (35%) e violência (40%). Esta última situa-se bem acima da média geral (18%), e nas demais abaixo.
Quanto à crise ambiental, os dados indicam que as mudanças climáticas são percebidas como uma ameaça potencial. Embora o Brasil seja central no debate ecológico global, para o cidadão comum, o tema permanece na periferia das urgências cotidianas, ainda não plenamente incorporado como uma prioridade básica de sobrevivência econômica e social.. No conjunto dos países, 83% dos entrevistados consideram que os governos estão despreparados diante dos desafios climáticos. Apenas 15% têm uma visão positiva. O Brasil registra 87% de avaliações negativas, enquanto Portugal (16% de positivas). O Brasil situa-se próximo da média geral (83%).
O Brasil apresenta um cenário complexo tanto no que toca à herança do período escravocrata quanto em relação às questões de gênero e diversidade (LGBTQIA+).
Há uma percepção de que a escravatura ainda impacta o cotidiano em várias dimensões da vida econômica, política e social. A sondagem indica que o impacto é de 35%, na vida social, 17% na politica e 9% na econômica. Na dimensão social, o impacto seria o maior, igualando ao de Portugal. Cerca de 90% dos brasileiros, segundo o Barômetro avaliam que é importante estudar a escravatura nas escolas, a segunda do ranking, depois de São Tomé e Príncipe.
Observa-se uma menor atenção às pautas de gênero e diversidade em comparação às demandas socioeconômicas mais urgentes. No Brasil, 55% dos entrevistados sentem que a situação das mulheres com relação aos homens é muito desigual ou desigual, a terceira no ranking depois de Guiné-Bissau e Cabo Verde. Com relação às uniões homoafetivas, 48% dos brasileiros a aprovam, logo depois de Portugal com um percentual bem mais elevado (70%). A luta por sobrevivência financeira e o acesso a serviços básicos relegam as questões identitárias para um plano secundário na percepção pública, ainda que os indicadores de violência contra estas minorias sejam preocupantes.
O país é um dos principais protagonistas no âmbito de produtos culturais no espaço lusófono, utilizando a língua portuguesa como instrumento de projeção internacional. A língua é vista como um ativo e um espaço simbólico de pertencimento e previsibilidade, reduzindo as disfunções e conflitos institucionais e facilitando a cooperação técnica e administrativa. Na comunidade lusófona, o Brasil é o maior exportador de cultura (68%), seguido de Portugal (56%) e o que menos consome a cultura dos vizinhos. No que diz respeito ao ecossistema de informação, o Brasil lidera o recebimento de fake news (80%) e o uso do Instagram (66%).
O Brasil espera que a CPLP tenha uma maior presença em fóruns internacionais e em missões de observação eleitoral. Cerca de 68% dos brasileiros são favoráveis a uma posição unificada da Comunidade Lusófona em fóruns internacionais como as Nações Unidas. A expectativa é que a CPLP seja protagonista na mediação de conflitos internacionais e na defesa de posições comuns que ampliem o peso diplomático dos países membros.
Jorge Jatobá, Doutor em Economia, Professor Titular da UFPE, Ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco, Membro do Conselho de Honra do LIDE-PE. Sócio da CEPLAN- Consultoria Econômica e Planejamento
Matéria original: https://jc.uol.com.br/opiniao/artigo/2026/03/16/o-brasil-no-contexto-da-comunidade-lusofona.html